Querido Papai Noel:
Inicialmente, Papai Noel, para justificar minha cartinha, e o teor da mesma, quero me apresentar: sou uma criança, já idosa, com 67 anos, mas com um coração de menino.
Nos idos da minha infância, que se perdeu nas brumas do tempo, e dentro das peculiaridades da inocência nela contida, escrevi, para você, Papai Noel, diversas cartinhas, nas quais externava os meus pedidos, que se traduziam em modestos brinquedos, como bolas, carinhos, etc.
Em nenhuma dessas oportunidades recebi sua visita, ou os brinquedos que pedi. Aguardava, no dia de Natal, a tua vinda, até alta madrugada, o que nunca ocorreu.
Era interessante que no dia de Natal, mais precisamente na noite de Natal, sentia que papai e mamãe ficavam tristes, mais do que nos dias normais, e somente com o passar dos Natais, e da vida, quando já adolescente, constatei que éramos pobres (não sabia que havia pobres e ricos), e que você, Papai Noel, não vinha visitar os pobres, pois talvez não sobrasse tempo, uma vez que dedicava todo o seu tempo, para a visita e entrega dos presentes, às crianças ricas.
Sempre, mesmo agora, quero acreditar que a sua ausência se deveu a algum problema com as renas ou com o trenó, ou algum contratempo, deveras importante, que o impedisse de vir. Por todos estes anos acreditei que um dia você viria, e iria me trazer um daqueles modestos brinquedos que pedi nas minhas inocentes cartinhas.
No entanto, Papai Noel, independentemente possam, em algum Natal, ser atendidas aquelas cartinhas, mando esta pedindo presentes que aparentemente não são de sua alçada, uma vez que, por muitos longos, anos não encontrei para quem pedir, pois não existem pessoas ou entidades que possam atendê-los.
Desejaria que, neste Natal, você mandasse:
1 - um Brasil democrático, pois aquilo que aqui temos, e que se convencionou chamar de democracia, é muito frágil, presa fácil para bandidos, facínoras e corruptos.
2 - um Estado de Direito, pois até agora não temos um por aqui, uma vez que o “nosso estado de direito” se dobrou à violência, a bandidagem, e a impunidade. É mais cômodo para este Estado de direito mandar instalar portas giratórias nos bancos e impedir que brasileiros honestos usem seu celular no interior dos bancos, do que combater a bandidagem. Temos que fazer das nossas casas verdadeiras prisões, com muros altos, grades, e cercas elétricas, pois a grande maioria dos bandidos esta circulando livremente, sem que sejam importunados. Sem contarmos, ainda, com a corrupção incontrolável que assola o país, sem qualquer tipo de punição, tirando toda a credibilidade daquilo que aqui nós chamamos de estado de direito.
3 – Um artigo constitucional que diga “que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, “à igualdade, à segurança” e à propriedade, mas que realmente seja cumprido, pois o que temos em nossa constituição freqüentemente não é cumprido, pois acabou por criar um grupo de brasileiros que são “mais iguais”, e que usam o hospital Sírio Libanês para tratar suas doenças, cujas despesas são pagas pelos iguais deste país, e que normalmente nem sequer direito a tratamento têm. Não esqueça, também, de mandar um judiciário que realmente faça cumprir esta cláusula como ela está escrita.
4 – a punibilidade para os políticos corruptos, pois a corrupção deslavada que assola o país atingiu este patamar não só pela omissão dos governantes, como também pela impunidade, que é um incentivo às práticas criminosas.
5 – o julgamento do “mensalão”, pelo Supremo Tribunal Federal, antes da prescrição.
Acho, então, Papai Noel, depois de 67 natais, que não estou pedindo nada mais justo, embora admita que não será fácil atender o pedido externado nesta cartinha.
É por isto, afinal, que acredito em Papai Noel.
JOÃO SZABO
18/12/2011