“Saudade: Recordação ao mesmo tempo triste e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; pesar, pela ausência de alguém que nos é querido; nostalgia. Lembranças afetuosas a pessoas ausentes” (Dicionário Escolar da Língua Portuguesa – Francisco Silveira Bueno).
Tive uma infância relativamente feliz, malgrado as dificuldades financeiras que sujeitavam meu pai e minha mãe a sacrifícios sobre humanos.
Recordo da imagem da mamãe, contando moedinhas, procurando-as no fundo das gavetas dos móveis, construídos por papai, instalados sobre o chão de tijolos de barro. Não havia luz elétrica, nem água encanada, sendo esta obtida de um poço construído no fundo do quintal. Havia um pequeno fogão à lenha, construído com tijolos, cuja lenha era buscada diariamente nas redondezas.
Não tenho muitas saudades destes tempos, e os recordo com uma certa tristeza. No entanto tenho saudades de minha mãe, linda, assoprando ou abanando a chama do fogão à lenha, para que não se extinguisse, a fim de que pudesse preparar a comida para a família.
Não tenho saudades das dificuldades financeiras que passávamos, mas tenho saudades da minha mãe, majestosa, uma verdadeira heroína, buscando moedas nas gavetas, visando suprir as necessidades básicas.
E o papai? Tentava pela posição da Lua adivinhar as horas, em alta madrugada, para sair para o trabalho, com a eterna preocupação de não perder a hora.
Toda a infância e a juventude foram difíceis, mas haviam, incrustados neles, momentos que deixaram saudades e lindas recordações.
Aprendi, assim, que a saudade se resume aos bons momentos, ainda que estes pudessem ter ocorrido no meio de tormentas e borrascas insuperáveis.
Quando já adulto, e pai, pretendi criar bons momentos para o meu filho, e evitar, ainda que impossível, momentos de tensão e nervosismo, pelos quais ele se entristecesse. Pretendia que com estes bons momentos, tal qual eu, ele viria, no amadurecimento da vida, a sentir saudades, e, portanto, sentir as mesmas emoções que sinto quando tenho saudades dos bons momentos da infância. Os bons momentos vieram com a praia, com “os parabéns pra você”, com os eclipses do sol e da lua, cujos explicativos foram dados anos depois, com a escola, a necessidade dos estudos, das festas escolares, e dezenas de outras situações, das quais ele poderia ter boas recordações.
Mas sempre existe o imponderável, o imprevisível. As esquinas da vida, que mudam, inopinadamente, o rumo traçado para a mesma.
Aos 28 anos meu filho faleceu, após uma internação por cerca de dois dias. Falar sobre a dor, e a tristeza, geradas, somente acrescentam mais dor e tristeza, num círculo vicioso inacabável. Alguns anos já se passaram, mas o vácuo da sua ausência jamais foi preenchido, e, acredito, nem o será, pois o tempo de vida que me resta, por mais elástico que possa ser, será insuficiente para que isto ocorra.
No entanto aprendi a ter muitas saudades lindas com ele. Justamente eu que estava tentando construir as suas saudades, saudades estas que ele não teve tempo de sentir.
E ficou claro que, apesar da tempestade que desabou sobre mim, construí, embora sem ter tido esta pretensão, saudades imensas, justamente daqueles momentos que estavam sendo vividos para construir as saudades que um dia ele poderia vir a ter.
João Szabo
14/10/2011
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