quarta-feira, 19 de outubro de 2011

DESCONSTRUÇÃO


(des.cons.tru.ir)
                        v.
  1  Destruir (uma construção) ou desfazer (qualquer tipo de obra), ger. para refazê-la em outros padrões [td.: A estilista desconstruiu pedaços de crochê para transformá-los em coletes.]
(Aulete – Dicionário Digital)

A regra geral, para o ser humano, é construir sempre. Construir uma carreira; construir um patrimônio, construir um lar, e tantas outras construções.

Há construções, no entanto, que depois de algum tempo de acabadas, ou mesmo durante a sua construção, necessitam tantos complementos, que não podem prosseguir.

Pode-se tentar, ao invés de implodi-las, desconstruí-las, voltando ao ponto inicial, e tentando reutilizar aqueles mesmos elementos da desconstrução, para uma nova construção, que atinja os mesmos objetivos.

Algum dos leitores já tentou isto?

Já tentou, por exemplo, desconstruir um grande amor?

Por um largo tempo um amor é construído, com juras, carinho, respeito, admiração, planos, renúncias, e tantos outros componentes que o solidificam, tornando-o uma construção sólida, quase indestrutível, pelo menos naquele momento.

Depois de solidificada a construção, surgem situações totalmente estranhas a ela, e que a tornam inútil, quase imprestável para o fim a que se destinava. Componentes totalmente alheios à vontade dos construtores dificultam a utilização daquela construção. Instala-se o tumulto, instala-se o desentendimento, como regra geral, impedindo o prosseguimento daquele projeto. Excepcionalmente não ocorre o tumulto ou desentendimento. Neste momento que surge a necessidade da implosão ou da desconstrução.

A diferença?

A implosão deixa traumas, deixa seqüelas, deixa ressentimentos, mágoas, e nenhuma saudade. Deixa uma sensação de vazio, e de fracasso.

A desconstrução, inteligente e sensata, deixa amizade, respeito, admiração, apoio, e, acima, de tudo, o principal: saudades.

No cotidiano a implosão é a norma, e a desconstrução é a exceção. Dificilmente se concebe a desconstrução de um grande amor, cujo edifício não atingiu o seu desiderato. A construção do amor, fracassado, simplesmente é destruída com violência, desorganização, e descontrole, gerando todo tipo de transtorno psicológico e material.

A desconstrução, por sua vez, diga-se de passagem, por ser a excepcionalidade, carece de paciência, desprendimento, renúncia, e por incrível que pareça, de amor.

Muitos, talvez, dos leitores, não concordem comigo, e que, talvez, também, nem sequer aceitem como possível a desconstrução inteligente de um grande amor, no entanto já foi escrito que o impossível, em número incontável de vezes, se torna possível.

JOÃO SZABO
18/10/2011

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

RUI BARBOSA


“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto".
Rui Barbosa
“(Senado Federal, RJ, Obras Completas,
Rui Barbosa. V. 41, t. 3, 1914, p. 86)"

Esta frase, não obstante tenha sido escrita há quase 100 anos, possui uma atualidade sufocante.

Se há 100 anos atrás esta frase foi escrita para a época, e se presta, mais do que nunca, à presente época, podemos concluir quase com cem por cento de certeza, que, no Brasil, nossos políticos não mudaram em nada, muito pelo contrário, estão muito piores que à época de Rui Barbosa.

JOÃO SZABO
17/10/2011

sábado, 15 de outubro de 2011

BATE BOCA NO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

Como pode ser observado no vídeo abaixo, nem sempre as sessões. No Supremo Tribunal Federal, são mansas e pacíficas.
Ficou claro que os contendores não se mantiveram um nível civilizado, no calor do debate, prejudicando a urbanidade necessária para o mister daquele Excelso Pretório.
Clique no endereço abaixo, e acesse o vídeo no endereço que será informado, em seguida.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

AS SAUDADES DO CONSTRUTOR DE SAUDADES

“Saudade: Recordação ao mesmo tempo triste e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; pesar, pela ausência de alguém que nos é querido; nostalgia. Lembranças afetuosas a pessoas ausentes” (Dicionário Escolar da Língua Portuguesa – Francisco Silveira Bueno).

Tive uma infância relativamente feliz, malgrado as dificuldades financeiras que sujeitavam meu pai e minha mãe a sacrifícios sobre humanos.

Recordo da imagem da mamãe, contando moedinhas, procurando-as no fundo das gavetas dos móveis, construídos por papai, instalados sobre o chão de tijolos de barro. Não havia luz elétrica, nem água encanada, sendo esta obtida de um poço construído no fundo do quintal. Havia um pequeno fogão à lenha, construído com tijolos, cuja lenha era buscada diariamente nas redondezas.

Não tenho muitas saudades destes tempos, e os recordo com uma certa tristeza. No entanto tenho saudades de minha mãe, linda, assoprando ou abanando a chama do fogão à lenha, para que não se extinguisse, a fim de que pudesse preparar a comida para a família.

Não tenho saudades das dificuldades financeiras que passávamos, mas tenho saudades da minha mãe, majestosa, uma verdadeira heroína, buscando moedas nas gavetas, visando suprir as necessidades básicas.

E o papai?  Tentava pela posição da Lua adivinhar as horas, em alta madrugada, para sair para o trabalho, com a eterna preocupação de não perder a hora.

Toda a infância e a juventude foram difíceis, mas haviam, incrustados neles, momentos que deixaram saudades e lindas recordações.

Aprendi, assim, que a saudade se resume aos bons momentos, ainda que estes pudessem ter ocorrido no meio de tormentas e borrascas insuperáveis.

Quando já adulto, e pai, pretendi criar bons momentos para o meu filho, e evitar, ainda que impossível, momentos de tensão e nervosismo, pelos quais ele se entristecesse. Pretendia que com estes bons momentos, tal qual eu, ele viria, no amadurecimento da vida, a sentir saudades, e, portanto, sentir as mesmas emoções que sinto quando tenho saudades dos bons momentos da infância. Os bons momentos vieram com a praia, com “os parabéns pra você”, com os eclipses do sol e da lua, cujos explicativos foram dados anos depois, com a escola, a necessidade dos estudos, das festas escolares, e dezenas de outras situações, das quais ele poderia ter boas recordações.

Mas sempre existe o imponderável, o imprevisível. As esquinas da vida, que mudam, inopinadamente, o rumo traçado para a mesma.

Aos 28 anos meu filho faleceu, após uma internação por cerca de dois dias. Falar sobre a dor, e a tristeza, geradas, somente acrescentam mais dor e tristeza, num círculo vicioso inacabável. Alguns anos já se passaram, mas o vácuo da sua ausência jamais foi preenchido, e, acredito, nem o será, pois o tempo de vida que me resta, por mais elástico que possa ser, será insuficiente para que isto ocorra.

No entanto aprendi a ter muitas saudades lindas com ele. Justamente eu que estava tentando construir as suas saudades, saudades estas que ele não teve tempo de sentir. 

E ficou claro que, apesar da tempestade que desabou sobre mim, construí, embora sem ter tido esta pretensão, saudades imensas, justamente daqueles momentos que estavam sendo vividos para construir as saudades que um dia ele poderia vir a ter.

João Szabo
14/10/2011

UM SONHO?

Por diversos dias esquentei a cabeça com um problema jurídico, que de princípio se afigurava fácil, mas como conseqüência dos estudos e pesquisas realizados, se tornou complexo e de difícil solução.

Vasculhei os livros de direito disponíveis, pesquisei jurisprudência, ensaiei verdadeiros malabarismos processuais, sem que surgisse uma solução lógica e justificável para o problema.

Diversos dias se passaram, sem que o busilis do problema se dissolvesse.
Na última noite, após o jantar, resolvi rememorar todo o problema, e raciocinar sobre cada um dos pontos duvidosos, visando, de uma forma definitiva, encontrar o caminho processual e encaminhar o problema.

Já, tarde da noite, exausto, e sem qualquer resultado plausível, fui para a cama, procurando a recuperação necessária para o enfrentamento da faina do dia seguinte.

Impregnado pela névoa da sonolência, encontrei-me caminhando pela área central de São Caetano do Sul, onde tenho meu escritório, mais precisamente na Rua Santa Catarina. Estava, neste momento, passando em frente ao escritório do meu ilustre e eterno amigo Doutor Odair Ávila Marafiotti, grande causídico criminalista, respeitado e admirado, e que circunstancialmente enveredava pela seara civil, com igual desenvoltura e eficiência.

Adentrei no seu escritório e, como de costume, fui recebido com aquele abraço amigo, e com aquela alegria contagiante, nele já conhecida.

Em ligeiras pinceladas esbocei o dilema profissional que me incomodava, e como sempre, também, foi todo ouvidos, comentando aqui ou ali algum tópico, que entendia importante, para o entendimento da questão.

Colocado o problema, após alguns curtos comentários sobre o mesmo, e sem maiores delongas, esboçou-me a solução do problema, inclusive citando alguns julgados que amparassem o encaminhamento do problema.

Fiquei duplamente feliz: primeiramente por ter falado com este amigo, que de há muito não via, e segundamente por ter resolvido um problema jurídico que já me transtornava há alguns dias, e cuja solução se perdia no horizonte.

Ao acordar, na manhã seguinte, e já sob a água tépida do chuveiro, tomei consciência de que tudo fora um sonho. Mesmo assim, após o banho, anotei ligeiramente o esquema que o Doutor Odair me havia fornecido, confirmando após alguns estudos e consultas no Código Processual, que a solução adequada era aquela, podendo ser encaminhada de forma segura.

No entanto, a emoção me invadiu, quando, refeito da satisfação de ter a solução do problema, lembrei que este grande amigo, e profissional ilibado, havia falecido há mais de um ano. Mesmo assim não deixou de auxiliar o amigo que, momentaneamente, necessitava  um adjutório.

João Szabo
13/10/2011  

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

O IMPOSSÍVEL POSSÍVEL

Diariamente vemos coisas impossíveis acontecendo, pelo menos coisas que até um certo tempo atrás eram dadas como impossíveis de acontecer.

Hoje são possíveis os transplantes de órgãos, que até alguns anos atrás eram dados como impossíveis. O próprio romance “Frankenstein: or The Modern Prometheus”, em inglês, de Mary Shelley, sempre foi considerado como ficção científica, e, no entanto, as experiências do personagem Victor Frankesntein, um estudante de ciências naturais, que constrói um monstro em seu laboratório, com sucessivos transplantes de membros e partes de corpos humanos, acabou com a ficção científica, criando-se uma realidade que hoje, nas ciências médicas, descortinou possibilidades infinitas na reconstrução de ossos, membros, peles e parte do corpo. Neste sentido, então, o impossível tornou-se possível.

A travessia dos mares era impossível antes do advento das caravelas, na época das Grandes Navegações. O entendimento, em torno do final da idade média, de que a terra era plana, e no seu extremo havia um abismo onde qualquer embarcação iria soçobrar, aliada à figura de monstros, como o gigante Adamastor, citado na obra Lusíadas, nas estrofes 37 a 60, de Luís Vaz de Camões, tornavam impossível se aventurar por aqueles mares.

No entanto Cristóvão Colombo descobriu a América e Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, navegando justamente por aqueles mares, nos quais era impossível a navegação.

Julio Verne, considerado o precursor da Ficção Científica, já em 1865, escreveu “Viagem ao redor da Lua”, narrativa na qual conta em detalhes, uma viagem ao satélite terrestre, desde sua concepção até o pouso naquele astro.  Era apenas ficção científica, pois isto era impossível de se realizar na prática.

Aproximadamente, 100 anos após, e cerca de 500 anos das grandes descobertas, o homem realizou o impossível, quando no dia 20 de julho de 1969, Neil Armtrong o astronauta da Apolo 11, pousou na Lua pela primeira vez na história da humanidade, tendo ainda como tripulantes Edwin “buzz” Aldrin e Michael Collins. Isto era totalmente impossível, antes do homem conseguir voar, com “o mais pesado que o ar”, marca que foi conquistada por Alberto Santos-Dumont, quando pilotou, em 23 de outubro de 1906, seu avião 14 bis.

Mais impossíveis que deixaram de existir, pois se tornaram possíveis?:

A Telefonia móvel, o chamado telefone celular. Há alguns anos, o aparelhinho nada mais era que ficção científica. Este aparelho, o celular, como o concebemos e utilizamos hoje, era o meio de comunicação, com a tripulação, do Capitão James Tiberius Kirk, interpretado por William Shatner, na série Star Trek (Jornada nas estrelas). Era impossível, há um século, admitir tal meio de comunicação. No entanto, hoje, bilhões de pessoas utilizam este meio de comunicação, nos seus contatos diários.

Podemos citar coisas impossíveis? Podemos, mas pelo cotidiano da humanidade, e pela prática diuturna da existência humana, se transformarão em possível.

Podemos afirmar, então, que o impossível não existe? Há muitas dúvidas quanto a isto, pois somente o tempo pode dizer se uma coisa impossível, num momento, pode ser possível em outro momento.

Muitas gerações entenderam como impossíveis coisas que se tornaram possíveis pelas gerações posteriores.

Os milagres atribuídos a Cristo são fatos que, pelo menos naquele momento, representaram a transformação do impossível no possível.

A impossibilidade de morrer, por exemplo. Temos ainda que definir o que é a morte, e se ela realmente existe, para que possamos discernir entre a possibilidade e a impossibilidade da morte. É possível evitá-la ou não?  Se isto, no decorrer do tempo, será atingido ou não?

Se entendermos que a morte física, como a concebemos, é mera transformação, então não haverá que falar, neste caso, em possível ou impossível, pois haverá uma perda de objeto para discussão.

No entanto, considerada a existência da humanidade como um todo, podemos afirmar, com grande porcentual de certeza, e disto provas temos em épocas e oportunidades várias, que o impossível não existe.

Muito, ainda, poderá ser escrito sobre o tema, com mais vagar, profundidade de análise e estudos.

João Szabo
12/10/2011

sábado, 8 de outubro de 2011

"OS CÃES LADRAM E A CARAVANA PASSA"


É um provérbio árabe, de amplo alcance e profunda interpretação.

De uma forma geral representa aquela situação, em que  não se deve preocupar com muitos dos acontecimentos diários, pois assim que você passar por eles, e após todos os “latidos” que foram ouvidos, tudo voltará ao normal.

É sabido que a grande maioria dos problemas trazem mais preocupações pelas suas conseqüências, do que pelos problemas em si, e em uma imensa quantidade de vezes a experiência humana demonstra que as conseqüências previstas não ocorrem, pois surgem outras que acabam por remeter ao esquecimento o primeiro.

Não devemos, portanto, responder de forma precipitada aos latidos dos cães.

Em inúmeras oportunidades existem os cães de plantão, que estão dispostos a ladrar à sua simples passagem, de tal sorte que você passará a latir com uma certa constância se latir para todos aqueles que ladram para você.

Às vezes isto até acontece com a pessoa do lado, num restaurante, na rua, e até com um vizinho que resolve latir somente porque viu você, ou porque você está passando.

A qualidade do cão que ladra também deve ser levada em consideração.

Normalmente o cão que ladra para você, enquanto você passa,  é um cão vira lata, sem nenhum pedigree, pois cães que latem, sem qualquer motivo, normalmente são cães despreparados, que não merecem qualquer atenção.

Tal provérbio também se aplica aos seres humanos, pois aqueles que  espalham boatos sobre a conduta ou caráter de outras pessoas, já por isto não são pessoas socialmente preparadas, tendo um caráter e uma decência duvidosas. Seriam os cachorros vira latas. E nunca poderiam se comparar com um cão de pedigree, até porque se assim fosse teriam preparo para não agir de forma tão socialmente reduzida. Se das pessoas que agem assim, for buscado o seu passado, verificaremos que são pessoas que normalmente não tiveram condutas honradas, ou que tiverem um passado negro, cheio de vícios e atitudes repreensivas, e que não se prepararam intelectualmente, preferindo a vida desregrada. Não é difícil encontrar este tipo de cachorro, ou cadela, na sociedade.

“Os cães ladram e a caravana passa” enseja, também, a monotonia do cotidiano, a monotonia do passo lento e cadenciado do camelo, já treinado pelo seu dono para que não se preocupe com o ladrar dos cães, monotonia esta que se estende por um largo período de tempo, demonstrando que aquilo sempre foi assim e que se repetirá no decorrer do tempo.

 “Os cães ladram e a caravana passa” enseja, também, a rotina repetida por anos, e séculos à fio. Durante este tempo mudam os cães, mudam os camelos, e os beduínos, os árabes do deserto, mas os cães continuarão a ladrar, e as caravanas continuarão a passar.

Não latas tu, portanto, para os cachorros e cadelas de plantão, pois os e as há, no cotidiano, em quantidade incomensurável.

JOÃO SZABO.
08/10/2011