CONTO – A
ESPERANÇA E A FÉ
Num país distante, tanto no espaço, como no tempo,
pois isto ocorreu no tempo das “mil e uma noites”, um prisioneiro, condenado à
forca, já no cadafalso, e perante o seu verdugo, recebia o capuz para a sua
execução.
Perguntou então, o condenado, ao algoz: − Não é uma
tradição, neste país, ter o condenado o direito de ver realizado o seu último
desejo?
Respondeu o carrasco: − Sim, e isto já ser-lhe-ia
perguntado. Qual é então, condenado, o seu último desejo?
O Condenado:
− Sempre tive habilidades para lidar com os cavalos.
Meu último desejo seria fazer um cavalo falar.
O algoz:
−
Impossível. Um cavalo não fala e não seria possível fazê-lo falar. O seu pedido
fica rejeitado.
Mas o povão, sempre o povão, em uníssono apupo,
pediu a presença do Rei, para dirimir o busilis.
Como em todas as questões de Estado, e como sempre
assim foi, e ainda hoje o é, o Rei poderia ser encontrado em todo e qualquer
lugar, menos no seu trono, e isto o sabia o algoz, o que, portanto ensejaria a
utilização de um razoável tempo na solução da questiúncula.
Localizado o Rei, claro que não no seu trono, foi
lhe informado da grave questão que cabia tão somente a ele dirimir. E por se
tratar de tão alta e tão importante Questão de Estado, o Rei deveria obedecer aos
estritos limites do protocolo. No dia seguinte, muniu-se, então, do seu cetro,
de sua coroa, e de seu manto, e depois de escolhido o seu séqüito, adentrou a
carruagem, devidamente preparada pelo estribeiro com seis cavalos brancos, até
porque o ato solene assim o exigia, e rumou para o local do evento, quer dizer
do enforcamento.
Ainda que, não obstante ter virado a noite, a
multidão, atenta aos acontecimentos, não arredara o pé, aguardando o desfecho
do impasse. Claro que uns poucos estavam lá para aplaudir o Rei, e a grande
maioria para apupar e protestar contra a economia, e a inflação, a carestia de
vida, e a corrupção que assolava o Palácio Real (não temos informações se estes
elementos existiam à época das “Mil e uma noites”, acreditando-se que sim, mas
com outros nomes, principalmente a corrupção e o desvio de verbas públicas).
Os serviçais palacianos, de forma rápida e
provisória, construíram um palanque para a acomodação do monarca, enquanto a
guarda pretoriana, fazia verdadeiros malabarismos para conter a multidão de
súditos, uma vez que uns queriam chegar ao Monarca para abraçá-lo, e outros,
simplesmente, para acertá-lo;
Vencidos todos os obstáculos protocolares e
burocráticos, e calada a multidão com a delicadeza própria da guarda pretoriana,
perguntou o Rei ao Condenado:
− Considerando as normas constitucionais deste país,
e as normas tradicionais de justiça aqui vigentes, qual é o seu último desejo,
condenado?
O condenado!
− Majestade, sempre tive habilidades para lidar com
os cavalos. Meu último desejo seria fazer um cavalo falar.
O Soberano, que não conhecia a questão, num espasmo
conseqüente da estupefação, face ao histriônico pedido, fez a clássica pose dos
grandes pensadores, e, pretendendo demonstrar aos seus súditos o seu senso de
justiça, perguntou:
− E antes de ser condenado à morte, quantos cavalos
conseguiu fazer falar?
O Condenado:
− Dois, Majestade. O primeiro balbuciou diversas
palavras, mas acabou sendo abatido, pois o Ministro da Zoologia entendeu que
aquilo era coisa do diabo, e, portanto teria que ser sacrificado. O outro já
estava até ensinando algumas palavras para outros cavalos, mas infelizmente foi
acometido de um mal nas cordas vocálicas, e o facultativo da Corte disse que
nem relinchar poderia mais. Foi uma pena, pois sua evolução linguística era
acentuada.
O Monarca:
− E quanto tempo necessitas para que um cavalo
comece a falar.
O Condenado:
− Dois anos, Majestade, são o suficiente para um
cavalo tagarelar.
O Monarca, após um silencio sepulcral, fez calar a
multidão de súditos, inclusive os que protestavam contra o desvio de verbas,
para ouvir a sábia decisão soberana, que seria solenemente declarada.
− Pois bem, Condenado, você terá os dois anos de que
carece, e poderá, ainda, escolher o cavalo que melhor atender sua exigências. E
mais: se o cavalo realmente falar comutarei a sua pena para prestação de
serviços públicos nos Laboratórios de Ciência do Palácio Real, pois não
poderemos desperdiçar um talento deste porte. Dou por encerrado o julgamento.
Esquecidos os desvios de verbas, pois é sabido que
os súditos têm, como o povo em geral, memória curta, foi a decisão longamente
aplaudida, pois viam nela, pelas tradições da terra, um ato de alta Justiça.
NA CELA
No dia seguinte, já recolhido à cela, o condenado,
ainda se apalpando pelo inusitado desfecho do enforcamento, recostou-se ao seu catre,
e, por evidente já estava planejando como faria para, simplesmente, nada mais
nada menos, fazer um cavalo falar.
O seu amigo de cela fez a seguinte observação:
− Você sabe que é impossível fazer um cavalo falar e
portanto você evitar a execução da sua pena.
Respondeu e ponderou o condenado:
− Vamos analisar o fato pelo lado positivo. Eu ontem
não tinha nenhum minuto de vida, hoje tenho dois anos. Temos, ainda, mais
algumas opções, senão vejamos:
a)
– Pode ser que,
nestes dois anos, eu consiga me evadir da prisão, e me livrar da forca:
b)
– Pode ser que
o nosso Reino seja invadido como vem se noticiando, e eu consiga uma anistia:
c)
– Pode ser que
o Monarca, por qualquer motivo, seja destituído ou substituído, e o próximo
Monarca, por tradições constitucionais me anistie da forca, e, finalmente, como
última opção,
d)
– o cavalo pode até falar!
Afinal de contas, em quantas oportunidades vistas, a
esperança e a fé produziram resultados totalmente inesperados.
JOÃO SZABO
25/01/2014
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