segunda-feira, 27 de janeiro de 2014


CONTO – A ESPERANÇA E A FÉ

Num país distante, tanto no espaço, como no tempo, pois isto ocorreu no tempo das “mil e uma noites”, um prisioneiro, condenado à forca, já no cadafalso, e perante o seu verdugo, recebia o capuz para a sua execução.

Perguntou então, o condenado, ao algoz: − Não é uma tradição, neste país, ter o condenado o direito de ver realizado o seu último desejo?
Respondeu o carrasco: − Sim, e isto já ser-lhe-ia perguntado. Qual é então, condenado, o seu último desejo?
O Condenado:
− Sempre tive habilidades para lidar com os cavalos. Meu último desejo seria fazer um cavalo falar.
O algoz:
  − Impossível. Um cavalo não fala e não seria possível fazê-lo falar. O seu pedido fica rejeitado.

Mas o povão, sempre o povão, em uníssono apupo, pediu a presença do Rei, para dirimir o busilis.

Como em todas as questões de Estado, e como sempre assim foi, e ainda hoje o é, o Rei poderia ser encontrado em todo e qualquer lugar, menos no seu trono, e isto o sabia o algoz, o que, portanto ensejaria a utilização de um razoável tempo na solução da questiúncula.

Localizado o Rei, claro que não no seu trono, foi lhe informado da grave questão que cabia tão somente a ele dirimir. E por se tratar de tão alta e tão importante Questão de Estado, o Rei deveria obedecer aos estritos limites do protocolo. No dia seguinte, muniu-se, então, do seu cetro, de sua coroa, e de seu manto, e depois de escolhido o seu séqüito, adentrou a carruagem, devidamente preparada pelo estribeiro com seis cavalos brancos, até porque o ato solene assim o exigia, e rumou para o local do evento, quer dizer do enforcamento.

Ainda que, não obstante ter virado a noite, a multidão, atenta aos acontecimentos, não arredara o pé, aguardando o desfecho do impasse. Claro que uns poucos estavam lá para aplaudir o Rei, e a grande maioria para apupar e protestar contra a economia, e a inflação, a carestia de vida, e a corrupção que assolava o Palácio Real (não temos informações se estes elementos existiam à época das “Mil e uma noites”, acreditando-se que sim, mas com outros nomes, principalmente a corrupção e o desvio de verbas públicas).

Os serviçais palacianos, de forma rápida e provisória, construíram um palanque para a acomodação do monarca, enquanto a guarda pretoriana, fazia verdadeiros malabarismos para conter a multidão de súditos, uma vez que uns queriam chegar ao Monarca para abraçá-lo, e outros, simplesmente, para acertá-lo;

Vencidos todos os obstáculos protocolares e burocráticos, e calada a multidão com a delicadeza própria da guarda pretoriana, perguntou o Rei ao Condenado:

− Considerando as normas constitucionais deste país, e as normas tradicionais de justiça aqui vigentes, qual é o seu último desejo, condenado?

O condenado!
− Majestade, sempre tive habilidades para lidar com os cavalos. Meu último desejo seria fazer um cavalo falar.

O Soberano, que não conhecia a questão, num espasmo conseqüente da estupefação, face ao histriônico pedido, fez a clássica pose dos grandes pensadores, e, pretendendo demonstrar aos seus súditos o seu senso de justiça, perguntou:

− E antes de ser condenado à morte, quantos cavalos conseguiu fazer falar?

O Condenado:

− Dois, Majestade. O primeiro balbuciou diversas palavras, mas acabou sendo abatido, pois o Ministro da Zoologia entendeu que aquilo era coisa do diabo, e, portanto teria que ser sacrificado. O outro já estava até ensinando algumas palavras para outros cavalos, mas infelizmente foi acometido de um mal nas cordas vocálicas, e o facultativo da Corte disse que nem relinchar poderia mais. Foi uma pena, pois sua evolução linguística era acentuada.

O Monarca:
− E quanto tempo necessitas para que um cavalo comece a falar.

O Condenado:
− Dois anos, Majestade, são o suficiente para um cavalo tagarelar.

O Monarca, após um silencio sepulcral, fez calar a multidão de súditos, inclusive os que protestavam contra o desvio de verbas, para ouvir a sábia decisão soberana, que seria solenemente declarada.

− Pois bem, Condenado, você terá os dois anos de que carece, e poderá, ainda, escolher o cavalo que melhor atender sua exigências. E mais: se o cavalo realmente falar comutarei a sua pena para prestação de serviços públicos nos Laboratórios de Ciência do Palácio Real, pois não poderemos desperdiçar um talento deste porte. Dou por encerrado o julgamento.

Esquecidos os desvios de verbas, pois é sabido que os súditos têm, como o povo em geral, memória curta, foi a decisão longamente aplaudida, pois viam nela, pelas tradições da terra, um ato de alta Justiça.

NA CELA

No dia seguinte, já recolhido à cela, o condenado, ainda se apalpando pelo inusitado desfecho do enforcamento, recostou-se ao seu catre, e, por evidente já estava planejando como faria para, simplesmente, nada mais nada menos, fazer um cavalo falar.

O seu amigo de cela fez a seguinte observação:
− Você sabe que é impossível fazer um cavalo falar e portanto você evitar a execução da sua pena.

Respondeu e ponderou o condenado:

− Vamos analisar o fato pelo lado positivo. Eu ontem não tinha nenhum minuto de vida, hoje tenho dois anos. Temos, ainda, mais algumas opções, senão vejamos:

a)     – Pode ser que, nestes dois anos, eu consiga me evadir da prisão, e me livrar da forca:

b)     – Pode ser que o nosso Reino seja invadido como vem se noticiando, e eu consiga uma anistia:

c)      – Pode ser que o Monarca, por qualquer motivo, seja destituído ou substituído, e o próximo Monarca, por tradições constitucionais me anistie da forca, e, finalmente, como última opção,
d)     o cavalo pode até falar!

Afinal de contas, em quantas oportunidades vistas, a esperança e a fé produziram resultados totalmente inesperados.

JOÃO SZABO

25/01/2014

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