domingo, 18 de maio de 2014


70 anos!

Ao me deparar com o espelho, hoje pela manhã, vislumbrei um homem com 70 anos. Em toda minha vida era a primeira vez que isto acontecia, e lembrei, e por isto que nunca havia acontecido, que eu estou, hoje, 18/05/2014, completando 70 anos de vida!

Vi-me na obrigação de estufar o peito e dar para mim um sonoro “Parabéns pra você”, com direito à musiqueta, palmas e hurras! 

Muitos amigos e amigas já completaram esta marca. Muitas pessoas, também, e algumas, inclusive, já a ultrapassaram de muito.

No entanto estou falando dos meus 70 anos.

De princípio, um longo caminho foi percorrido.

No entanto, hoje, depois de consumado, não parece que foi tão longo.

Parece que comecei minha viagem ontem.

Muitos fatos, ainda, se encontram, vivos. Alguns ficaram esfumaçados e dançam, de forma bruxuleante na minha mente, entre sombras e luzes. E outros mais se perderam nas brumas do tempo! Vez ou outra, de forma totalmente involuntária, alguns fatos, já perdidos no tempo, retornam com força de realidade, causando, alguns, uma saudade imensa, e langorosa, e, outros, emoções e sofrimentos.

Muitos amigos, e amigas, entraram e saíram da minha vida.
Alguns voltaram ao seu estado normal que é a espiritualidade, e outros, como eu, estão aqui, cumprindo sua missão, embalados na materialidade.

Muitos saíram da minha vida porque caminhos outros os levaram do meu convívio. De muitos nem sequer tenho notícias. De outros circunstancialmente recebo informações. Mas de qualquer sorte os tenho todos guardados no coração.

Foram muitos os momentos de alegria e felicidade, quando conheci o amor, e amei pela primeira vez. Quando encontrei a mulher dos meus sonhos, e quando nasceu o primeiro, e único filho, que como conseqüência trouxe inúmeras alegrias e uma quantidade infinita de emoções, e apreensões. A alegria imensa pela conquista do primeiro “canudo”! O prazer conquistado, e experimentado, ao concluir a última página de um livro. E tantos outros momentos pequenos na sua essência, mas de grandiosa força na existência pessoal.

De forma idêntica, foram muitos os momentos difíceis, e que muito me maltrataram, como quando Deus, na sua infinita sabedoria levou o meu filho do meu convívio. Talvez o momento mais sofrido, mais cruel, que me tirou o chão, que me desnorteou e que, momentaneamente, me embruteceu e me descaracterizou como ser humano. No entanto, também este mesmo Deus, que me atribuiu esta amargura, me fez ver os benefícios espirituais que tais circunstâncias oferecem àqueles que por tais fatos passam. Amadureci, evolui, e me depurei, espiritualmente!

Muitas decepções, também, fizeram parte desta trajetória. Não excluo, talvez, em alguns momentos as decepções que pude ter causado a algum amigo, amiga, ou pessoas presentes ou ausentes. Não o fiz, de qualquer forma, de forma voluntária, sinceramente. Se alguma vez assim agi, o foi totalmente involuntário, pelo que me penitencio e peço perdão a todos aqueles que decepcionados e ofendidos se sentiram!

Não quero que, neste modesto arrazoado, fique caracterizada uma perfeição, que absolutamente, como ser humano, não tenho. Errei, acho, em mais vezes do que acertei. Falhei inúmeras vezes, neste percurso. Algumas vezes por ser dono do mundo, e outras por pura inexperiência. Não participei, em algumas oportunidades, da vida de pessoas que naquele momento precisaram de mim.  Omiti-me, com certeza em situações que deveria estar presente. Falhei com pessoas que confiaram em mim, e errei, de forma primária, em outras tantas vezes. Apenas tenho para comigo que nunca tive a vontade, ou o objetivo precípuo de prejudicar. Se soubesse disto, por antecipação, não o faria, com certeza! E tenho convicção que, se possível, merecerei o perdão destes ou destas, que de forma inconsciente prejudiquei, ou causei algum ou qualquer malefício.


Poderia me estender, e falar, ainda, de conquistas, materialmente falando, e de conquistas intelectuais, no campo dos estudos e pesquisas, mas tais fatos são de irrelevante importância, se cotejados com os paradigmas das alegrias e momentos felizes passados.

Então agradeço, assim, a todos os amigos, e amigas, e pessoas presentes ou não, que ainda aqui estão, e os que já foram, mas que presentes espiritualmente aqui se encontram, todo o amor e carinho que me foram externados nesta minha caminhada pela vida, e principalmente a pessoa que me amou, e que me ama hoje incondicionalmente, de forma desinteressada e desapegada!

Eu os amo a todos. Fiquem com Deus, e se cuidem bastante.

Um grande e forte abraço, e um beijo extremamente carinhoso.

João Szabo

18/05/2014

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014


CONTO – A ESPERANÇA E A FÉ

Num país distante, tanto no espaço, como no tempo, pois isto ocorreu no tempo das “mil e uma noites”, um prisioneiro, condenado à forca, já no cadafalso, e perante o seu verdugo, recebia o capuz para a sua execução.

Perguntou então, o condenado, ao algoz: − Não é uma tradição, neste país, ter o condenado o direito de ver realizado o seu último desejo?
Respondeu o carrasco: − Sim, e isto já ser-lhe-ia perguntado. Qual é então, condenado, o seu último desejo?
O Condenado:
− Sempre tive habilidades para lidar com os cavalos. Meu último desejo seria fazer um cavalo falar.
O algoz:
  − Impossível. Um cavalo não fala e não seria possível fazê-lo falar. O seu pedido fica rejeitado.

Mas o povão, sempre o povão, em uníssono apupo, pediu a presença do Rei, para dirimir o busilis.

Como em todas as questões de Estado, e como sempre assim foi, e ainda hoje o é, o Rei poderia ser encontrado em todo e qualquer lugar, menos no seu trono, e isto o sabia o algoz, o que, portanto ensejaria a utilização de um razoável tempo na solução da questiúncula.

Localizado o Rei, claro que não no seu trono, foi lhe informado da grave questão que cabia tão somente a ele dirimir. E por se tratar de tão alta e tão importante Questão de Estado, o Rei deveria obedecer aos estritos limites do protocolo. No dia seguinte, muniu-se, então, do seu cetro, de sua coroa, e de seu manto, e depois de escolhido o seu séqüito, adentrou a carruagem, devidamente preparada pelo estribeiro com seis cavalos brancos, até porque o ato solene assim o exigia, e rumou para o local do evento, quer dizer do enforcamento.

Ainda que, não obstante ter virado a noite, a multidão, atenta aos acontecimentos, não arredara o pé, aguardando o desfecho do impasse. Claro que uns poucos estavam lá para aplaudir o Rei, e a grande maioria para apupar e protestar contra a economia, e a inflação, a carestia de vida, e a corrupção que assolava o Palácio Real (não temos informações se estes elementos existiam à época das “Mil e uma noites”, acreditando-se que sim, mas com outros nomes, principalmente a corrupção e o desvio de verbas públicas).

Os serviçais palacianos, de forma rápida e provisória, construíram um palanque para a acomodação do monarca, enquanto a guarda pretoriana, fazia verdadeiros malabarismos para conter a multidão de súditos, uma vez que uns queriam chegar ao Monarca para abraçá-lo, e outros, simplesmente, para acertá-lo;

Vencidos todos os obstáculos protocolares e burocráticos, e calada a multidão com a delicadeza própria da guarda pretoriana, perguntou o Rei ao Condenado:

− Considerando as normas constitucionais deste país, e as normas tradicionais de justiça aqui vigentes, qual é o seu último desejo, condenado?

O condenado!
− Majestade, sempre tive habilidades para lidar com os cavalos. Meu último desejo seria fazer um cavalo falar.

O Soberano, que não conhecia a questão, num espasmo conseqüente da estupefação, face ao histriônico pedido, fez a clássica pose dos grandes pensadores, e, pretendendo demonstrar aos seus súditos o seu senso de justiça, perguntou:

− E antes de ser condenado à morte, quantos cavalos conseguiu fazer falar?

O Condenado:

− Dois, Majestade. O primeiro balbuciou diversas palavras, mas acabou sendo abatido, pois o Ministro da Zoologia entendeu que aquilo era coisa do diabo, e, portanto teria que ser sacrificado. O outro já estava até ensinando algumas palavras para outros cavalos, mas infelizmente foi acometido de um mal nas cordas vocálicas, e o facultativo da Corte disse que nem relinchar poderia mais. Foi uma pena, pois sua evolução linguística era acentuada.

O Monarca:
− E quanto tempo necessitas para que um cavalo comece a falar.

O Condenado:
− Dois anos, Majestade, são o suficiente para um cavalo tagarelar.

O Monarca, após um silencio sepulcral, fez calar a multidão de súditos, inclusive os que protestavam contra o desvio de verbas, para ouvir a sábia decisão soberana, que seria solenemente declarada.

− Pois bem, Condenado, você terá os dois anos de que carece, e poderá, ainda, escolher o cavalo que melhor atender sua exigências. E mais: se o cavalo realmente falar comutarei a sua pena para prestação de serviços públicos nos Laboratórios de Ciência do Palácio Real, pois não poderemos desperdiçar um talento deste porte. Dou por encerrado o julgamento.

Esquecidos os desvios de verbas, pois é sabido que os súditos têm, como o povo em geral, memória curta, foi a decisão longamente aplaudida, pois viam nela, pelas tradições da terra, um ato de alta Justiça.

NA CELA

No dia seguinte, já recolhido à cela, o condenado, ainda se apalpando pelo inusitado desfecho do enforcamento, recostou-se ao seu catre, e, por evidente já estava planejando como faria para, simplesmente, nada mais nada menos, fazer um cavalo falar.

O seu amigo de cela fez a seguinte observação:
− Você sabe que é impossível fazer um cavalo falar e portanto você evitar a execução da sua pena.

Respondeu e ponderou o condenado:

− Vamos analisar o fato pelo lado positivo. Eu ontem não tinha nenhum minuto de vida, hoje tenho dois anos. Temos, ainda, mais algumas opções, senão vejamos:

a)     – Pode ser que, nestes dois anos, eu consiga me evadir da prisão, e me livrar da forca:

b)     – Pode ser que o nosso Reino seja invadido como vem se noticiando, e eu consiga uma anistia:

c)      – Pode ser que o Monarca, por qualquer motivo, seja destituído ou substituído, e o próximo Monarca, por tradições constitucionais me anistie da forca, e, finalmente, como última opção,
d)     o cavalo pode até falar!

Afinal de contas, em quantas oportunidades vistas, a esperança e a fé produziram resultados totalmente inesperados.

JOÃO SZABO

25/01/2014