O "bicorno"
Encontrava-me, numa lanchonete, num destes finais de tarde escaldante e modorrento, juntamente com um amigo de trabalho, onde fomos degustar um chopinho, depois de um dia estafante de trabalho.
A moçoila, atendente, toda solícita, nos sugeriu experimentássemos o "bichope", especialidade da casa, que entendia ser mais adequado ao mormaço que impregnava todo o ambiente.
Aceitamos sua sugestão, não obstante não esperássemos surpresa, pois em nossa juventude o caneco de chope, que equivalia a dois "cristais", se chamava "maracanã", e, como esperado, nos trouxe dois polpudos e volumosos canecos de vidro, cujo chope formava uma abóbada de espuma cremosa e cintilante.
Após o clássico, e tradicional, "viva", atacamos o caneco, sorvendo com sofreguidão o precioso líquido. Mesmo antes de depositar o caneco na mesa, meu amigo já se embrenhava por algumas elucubrações acerca do nome do caneco: "bichope".
Porquê "bichope", se o caneco, mesmo sendo volumoso, era um só? O "bichope" não deveria representar dois chopes? Considerando-se que qualquer que fosse o tamanho, sendo um só, não poderia ser bi. Não era um tema muito convidativo para a canícula reinante naquela tarde, no entanto abracei a ideia de pensar sobre o tema e seguir o raciocínio fértil do meu amigo. Não atribuía o tema aos eflúvios etílicos, pois estávamos, ainda, no primeiro gole.
Enveredamos, então, pelos raciocínios do "bi", sufixo oriundo do latim que significa duas vezes, e que antecede palavras representativas de elementos linguísticos, e que ficam duplicados com sua utilização: bicentenário (duzentos anos, ou duas vezes cem anos); biênio (dois anos ou duas vezes um ano); equação biquadrada (que tem uma incógnita com potência quatro, ou seja, duas vezes uma potência quadrada); binômio (em matemática um polinômio formado por dois monômios), etc.
O "bi" se espraiou por outras searas, como a dos animais que tem dois elementos iguais no organismo, como, por exemplo, duas asas (bialado); duas orelhas (biauricular); duas caudas (bicaudado); duas glândulas (biglandular); duas mãos (bímano); dois olhos (binoculado); dois chifres (bicórneo); dois pés (bípede), e outras palavras mais.
Não conseguimos, no desenvolvimento do tema, escapar dos animais que possuem dois chifres, ou dois cornos, como o gado, o elefante, o rinoceronte, o búfalo, e outros. Neste caso são os animais chamados animais bicórneos ou bicornes. No entanto, apesar de possuírem dois cornos, não são chamados de "bicornos", e sim de bicórneos. O Dicionário Caldas Aulete registra a palavra bícórneo, ou bicorne.
Através do notbook, numa consulta rápida, verificamos que não existe no Caldas Aulete, pelo menos não localizamos, a palavra "bicorno". A palavra "bicorno", apesar de não ser registrada, aparece quando se refere ao "útero bicorno", que representa uma má formação uterina, em que existe uma membrana dividindo o útero em dois lados, na parte interna. Essa membrana pode ter tamanho variado, desde uma pequena divisão, até uma divisão completa do útero em dois.
Mas se sobressaiu a malícia da busca, quando o meu amigo quis saber se existia a expressão "bicorno". Cria ele que o "bicorno" se aplicaria ao caso do homem que fora traído duas vezes.
Mais uma vez, agora em novas elucubrações, e já com o propósito de pedir mais dois "bichopes", suscitou a dúvida se a expressão "bicorno" representaria uma dupla traição pela mesma mulher, ou uma dupla traição, mas por mulheres diferentes.
Solicitamos, então, mais dois "bichopes", pois o raciocínio seria longo e cansativo.
Aliás, nem sei o porquê ter me metido naquela confusão, numa tarde tão difícil, mas a amizade...
E sem mais delongas, meu amigo contou a história de um casal, vizinho seu, cujo marido faria jus, sem qualquer dúvida a expressão "bicorno".
Tratava-se de sua vizinha que, antes do casamento, não possuíra uma vida exemplar, saindo com diversos homens, dois às vezes, no mesmo dia, sendo, ainda, usuária de drogas. Tinha, o meu amigo, uma ligeira informação que ela era amante de um bandido que havia assassinado alguma pessoas.
Mas tirante os detalhes, disse: que, quando ela e o marido namoravam, se ela saia com o namorado à tarde, à noite saía com outro, e vice versa, o que não deu margem a dúvidas que ele, já em namoro, era corno. Casando-se com ela, como aconteceu, o mesmo oficializou tal situação social. Como estávamos degustando o famoso segundo "bichope", e o "bichope" tinha sido o início do tema, perguntei, até de forma ingênua, onde entrava a expressão bicorno, considerando o relato do meu amigo.
— Pois é!
E, atacando febrilmente o "bichope", disse o meu amigo que, após o casamento, sua vizinha, esposa do cidadão em tela, quando das primeiras brigas, o chamava de corno, pois a primeira esposa do dito cujo havia encastelado um namorado em casa, mesmo na presença dele. Então com esta informação ele se tornou "bicorno": na primeira vez, por esta informação, com a primeira esposa, e, na segunda, pela própria vizinha, sua esposa atual, que o traiu, e, no caso, por duas esposas diferentes.
Esta conclusão, quiça, acalmasse a sanha intelectual do meu amigo, uma vez que, tanto para a dupla traição pela mesma esposa, como por duas esposas diferentes, a palavra bicorno se encaixava perfeitamente.
A esta altura perguntei a ele se não estava exagerando tendo em vista o segundo "bichope". Propôs-se, inclusive, em nome da seriedade de sua história, ficar de pé e fazer o famoso quatro, provando estar perfeitamente sóbrio. Acreditei, e dispensei a prova, até porquê não era uma história tão absurda assim, parecendo haver casos outros idênticos na sociedade.
Insistia em que os léxicos deveriam ser corrigidos, pois se para a expressão córneo existe a duplicidade bicórneo, que representa a duplicidade de chifres, então, para a expressão corno deveria existir a duplicidade "bicorno", que representa o homem traído duplamente.
Quanto a este último tópico eu não quis enfrentar a maratona intelectual que se avizinhava, pois isto implicaria em mais um "bichope", e, também, porquê já se fazia tarde, além do que o aconchego do lar me aguardava.
Não obstante sua insistência, terminamos o "bichope", e findamos o diálogo, mas prometi a ele, a fim de que não restassem melindres, que no próximo encontro falaríamos sobre a "falha gravíssima" detectada por ele nos dicionários.
(a propósito, a palavra "bichope" também não consta no Caldas Aulete).
João Szabo
07/09/2012
Tratava-se de sua vizinha que, antes do casamento, não possuíra uma vida exemplar, saindo com diversos homens, dois às vezes, no mesmo dia, sendo, ainda, usuária de drogas. Tinha, o meu amigo, uma ligeira informação que ela era amante de um bandido que havia assassinado alguma pessoas.
Mas tirante os detalhes, disse: que, quando ela e o marido namoravam, se ela saia com o namorado à tarde, à noite saía com outro, e vice versa, o que não deu margem a dúvidas que ele, já em namoro, era corno. Casando-se com ela, como aconteceu, o mesmo oficializou tal situação social. Como estávamos degustando o famoso segundo "bichope", e o "bichope" tinha sido o início do tema, perguntei, até de forma ingênua, onde entrava a expressão bicorno, considerando o relato do meu amigo.
— Pois é!
E, atacando febrilmente o "bichope", disse o meu amigo que, após o casamento, sua vizinha, esposa do cidadão em tela, quando das primeiras brigas, o chamava de corno, pois a primeira esposa do dito cujo havia encastelado um namorado em casa, mesmo na presença dele. Então com esta informação ele se tornou "bicorno": na primeira vez, por esta informação, com a primeira esposa, e, na segunda, pela própria vizinha, sua esposa atual, que o traiu, e, no caso, por duas esposas diferentes.
Esta conclusão, quiça, acalmasse a sanha intelectual do meu amigo, uma vez que, tanto para a dupla traição pela mesma esposa, como por duas esposas diferentes, a palavra bicorno se encaixava perfeitamente.
A esta altura perguntei a ele se não estava exagerando tendo em vista o segundo "bichope". Propôs-se, inclusive, em nome da seriedade de sua história, ficar de pé e fazer o famoso quatro, provando estar perfeitamente sóbrio. Acreditei, e dispensei a prova, até porquê não era uma história tão absurda assim, parecendo haver casos outros idênticos na sociedade.
Insistia em que os léxicos deveriam ser corrigidos, pois se para a expressão córneo existe a duplicidade bicórneo, que representa a duplicidade de chifres, então, para a expressão corno deveria existir a duplicidade "bicorno", que representa o homem traído duplamente.
Quanto a este último tópico eu não quis enfrentar a maratona intelectual que se avizinhava, pois isto implicaria em mais um "bichope", e, também, porquê já se fazia tarde, além do que o aconchego do lar me aguardava.
Não obstante sua insistência, terminamos o "bichope", e findamos o diálogo, mas prometi a ele, a fim de que não restassem melindres, que no próximo encontro falaríamos sobre a "falha gravíssima" detectada por ele nos dicionários.
(a propósito, a palavra "bichope" também não consta no Caldas Aulete).
João Szabo
07/09/2012